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“Elaboro as histórias que realmente quero contar” – uma entrevista com Marcelo D’Salete


publicada originalmente no
Suplemento nº 3 (março/2015)

Marcelo D’Salete é parte de uma geração de quadrinistas que trouxe novo fôlego ao cenário nacional nos últimos anos. Editoras abriram selos especializados e lançaram títulos de autores nacionais, colocando-os ao lado de estrangeiros consagrados e dando cada vez mais espaço para que direcionem e explorem histórias próprias.

Nesse ambiente foram publicados os principais trabalhos de D’Salete, mostrando uma mudança do mercado de quadrinhos brasileiro, que agora oferece maior diversidade estética e narrativa. Entre histórias para antologias e livros próprios, seu estilo se desenvolveu, passando a dominar como poucos o pincel e o uso do preto e branco. Suas preocupações, porém, parecem ter se mantido, fazendo da opressão e da resistência seus grandes temas.

Nesta entrevista, D’Salete fala sobre suas influências, seu modo de trabalhar e as mudanças causadas por
Cumbe, um de seus livros mais recentes.



Suplemento Visualmente seus trabalhos são uma mistura de estéticas diferenciadas no que diz respeito ao ritmo, ao enquadramento, à diagramação e até mesmo ao uso das onomatopeias. Podemos ver traços de quadrinhos europeus, norteamericanos e do mangá. Seu modo de escrever, no entanto, não deixa tão claras suas influências. Quais são suas referências na escrita?

Marcelo D'Salete Minhas influências passam pelos quadrinhos, mas também pelo cinema. Quando comecei a fazer quadrinhos, a influência do cinema era ainda mais forte na forma de ver e contar. Diretores como Michael Haneke, Gaspar Noé, Takeshi Kitano e Mahamat Saleh Haroun. Alguns filmes de Michelangelo Antonioni, Spike Lee, Sérgio Bianchi e Cláudio Assis foram importantes nesse processo. A literatura também ajudou a imaginar novas formas de narrar. Tenho dificuldades em identificar essas influências, mas posso dizer que há autores que gosto muito de ler, como Plínio Marcos, Toni Morrison e Jorge Luis Borges. Muitas histórias surgem a partir de cenas e conflitos e aos poucos se tornam maiores. Essas cenas, em vários casos, surgem a partir de diálogos com filmes, quadrinhos, literatura ou música.

S Trabalhar em preto e branco causa uma limitação na caracterização dos personagens e cenários. O uso de cores ampliaria a quantidade de informações de uma forma benéfica ou desviaria a atenção para os contrastes que está tentando mostrar?

MD Tenho muito apreço pelo desenho em preto e branco. Ainda considero que estou aprendendo a lidar com essa técnica. Noite Luz, Encruzilhada, Risco e Cumbe  foram tentativas de dominar essa forma de representar. Além disso, gosto muito da textura, do deslizar do pincel na folha, da tinta nanquim e acrílica. José Munõz, Hugo Pratt, Guazzelli e Flávio Colin são artistas que me ensinaram muito nesse sentido. A finalização em preto e branco é certamente um dos meus momentos preferidos. As cores, muitas vezes, no meu caso, acabam não acrescentando muito. Apesar disso, já realizei algumas experiências em cor para histórias curtas ou ilustrações de livros juvenis. Tenho planos de voltar a realizar trabalhos em cor no futuro. Imagino que isso é um aprendizado importante.

S Sabemos que quadrinhos comportam qualquer tema, mas que, por motivos editoriais e financeiros, alguns assuntos “delicados” são evitados. Você encontrou algum obstáculo por tratar de questões etnicorraciais no meio dos quadrinhos? Acha que seria diferente em outras áreas?

MD Quadrinhos são uma arte muito especial para mim. Elaboro as histórias que realmente quero contar. Tratar de histórias sobre cultura negra no Brasil foi uma forma de explorar algo ausente do que via nas bancas e livrarias, e também a oportunidade de falar do tema de um outro ponto de vista. Em geral, tenho a ideia e realizo as histórias e livros em casa, num processo demorado, que leva dois, três anos ou mais. Somente com o trabalho pronto vou atrás do editor e trato das possibilidades de publicação. Em alguns casos, achar o editor certo foi demorado: rolou muita carta sem resposta. Mas, no fim, creio que publiquei com ótimos editores, pessoas interessadas em algo novo e diferente. O Brasil é um país racista, grande parte da população negra está na base da pirâmide social e tratar desses temas em qualquer mídia não é tranquilo, mas este é o tipo de narrativa que procuro contar.

S Por ser um livro de época, Cumbe foge dos cenários urbanos contemporâneos, que são tão importantes nos seus trabalhos anteriores quanto os protagonistas. Porém, o clima tenso e claustrofóbico criado pela verticalidade das metrópoles não é amenizado quando substituído pelo mar, pela floresta e pelo campo. Houve alguma dificuldade na construção da narrativa por conta dessa mudança de ambientação?

MD Demorei muito para decidir realizar narrativas históricas como Cumbe. Meus primeiros roteiros desse tipo foram em 2006. No entanto, naquela época, sabia que não tinha repertório e nem condições de representar graficamente o Brasil de séculos atrás. Durante diversos anos fiz pesquisa de imagens e leitura de textos sobre o período. Depois do livro Encruzilhada, considerei que estava mais maduro para começar a desenhar essas histórias. Não foi fácil. Em algumas páginas fiz dois ou três tratamentos até considerar que estava bom para publicar. Trocar as paisagens urbanas pelo campo e pelos engenhos foi muito trabalhoso. Por outro lado, um grande aprendizado.

S Cumbe exigiu uma pesquisa histórica que é diferente dos seus trabalhos anteriores. Quais foram os cuidados que tiveram que ser tomados? Você teve que repensar algum aspecto do modo como trabalha?

MD O processo de trabalho foi totalmente diferente. Nos livros Noite Luz, Encruzilhada e Risco as histórias surgiram de modo muito direto: conversas com colegas, notas de jornal, observação das pessoas nas ruas. A partir disso surgiam cenas, conflitos e narrativas. Vez ou outra era necessário pesquisar algum detalhe para enriquecer a história, personagens ou mesmo para desenhos da cidade. Construir histórias assim é muito tranquilo e prazeroso no meu caso.

Cumbe surgiu a partir de uma pilha de livros, cópias de livros e imagens. Na época, eu trabalhava no Museu Afro Brasil, o que ajudou bastante, pois lá existe um acervo ótimo sobre o tema. Antes, eu tinha algumas ideias de histórias, que descartei totalmente quando me deparei com as leituras sobre escravidão. Surgiram histórias bem mais interessantes ali. Estudar sobre as culturas banto antigas de Angola e Congo foi único. Ampliou muito minha visão. Cumbe também é parte das minhas pesquisas e interesses para fazer uma narrativa de palmares, algo que está em processo, e é ainda mais ambicioso. A pesquisa e o interesse despertados por Cumbe são parte de um projeto mais ambicioso, uma narrativa de palmares, ainda em processo. Para fazer Cumbe, tentei compreender um pouco as possibilidades de ação e diálogo naquele período: como a perspectiva era de personagens negros, pesquisei bastante para trazer elementos e símbolos importantes para compor cada personagem. Além disso, evitei deslocar conceitos da nossa época para aquele período. Por exemplo, o conceito de liberdade, hoje, é muito diferente do que se compreendia como liberdade naquele tempo.

S Em que sentido a sua pesquisa alterou sua visão histórica sobre escravidão no Brasil?

MD Um aprendizado relevante foi a respeito da cultura de grande parte dos africanos escravizados e trazidos para o Brasil. Quando falamos disso logo pensamos principalmente em orixás e nos yorubás que vieram da Nigéria. No entanto, apesar da importância religiosa, este grupo de africanos era pequeno. O grande contingente de africanos trazidos para cá era da região de Angola e do Congo, ou seja, de origem banto. A influência deste grupo está presente sobremaneira em nossa língua e em nossas manifestações populares. No livro, isso aparece na fala dos personagens, em símbolos, esculturas e nos títulos das histórias (Malungo, Cumbe e Calunga).

S Você falou sobre descartar ideias para histórias ao encontrar novas informações sobre um assunto. Quanto da ideia original você normalmente mantém no trabalho final? Essa é uma preocupação sua enquanto autor?

MD Quando elaboro o roteiro tenho em mente que aquela é uma das possibilidades da história. O roteiro tem grande parte do que pretendo tratar na narrativa, mas em geral acrescento novas passagens, informações e ideias no momento de realizar os desenhos. É interessante estar atento para aproveitar essas alternativas. Isso torna todo o processo mais interessante e complexo. Imagino que o roteiro precisa sempre ser interpretado pelo artista a ponto de sofrer modificações, sempre que preciso. ︎