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“Desenho é o que você quiser fazer dele” – uma entrevista com Fabio Zimbres


publicada originalmente no
Suplemento nº 1 (março/2014)

Fabio Zimbres nasceu em São Paulo, cursou arquitetura na FAU-USP e se formou em artes plásticas em Porto Alegre, onde vive até hoje. A partir da década de 1980 passou a produzir quadrinhos e fanzines, tendo sido editor da revista Animal e da Edições Tonto, tornando-se um dos um dos principais nomes da produção independente nacional.

Com seu consagrado traço trêmulo e uma narrativa angustiante, produziu a tira diária Vida boa para a Folha de São Paulo entre 1999 e 2001, lançada posteriormente num só volume pela Zarabatana. Sempre prolífico, expandiu seu trabalho para as galerias de arte, mantendo a mesma imediatez na abordagem e despreocupação com o rigor técnico – um estilo que se tornou referência para mais de uma geração de quadrinistas no Brasil.

Nesta entrevista, Zimbres fala ao Suplemento sobre autopublicação, seu traço “urgente” e a diferença entre ser quadrinista e artista plástico.



Suplemento Você acredita que a falta da troca analógica de informação proporcionada pelos zines repercute (técnica, esteticamente etc.) na forma como um quadrinista trabalha?

Fabio Zimbres Não sei. Provavelmente. Não sentimos essa falta ainda, não de maneira definitiva. A troca analógica ainda é muito presente. O futuro com certeza vai mudar a relação entre o digital e o papel como vemos hoje em dia até o ponto em que as desvantagens do digital vão ser mínimas se comparadas com as vantagens do papel. O papel pode não sumir, mas a maneira de trabalhar vai mudar com certeza. Nós tradicionalmente desenhamos sobre papel e esse desenho depois é impresso sobre papel, o que faz todo sentido. Vai fazer sentido se o desenho não existir mais no papel e for apenas digital. Isso já acontece e tende a ser a norma, acho. Pelo menos na indústria do livro e editorial.

S Qual é a maior diferença que você vê entre a autopublicação do século passado e a atual?

FZ No século passado a autoedição era a única alternativa para a outra opção: ser editado por alguma editora que imprimia, distribuía e vendia. Os meios, além do tradicional offset, podiam incluir xilogravura, serigrafia e, posteriormente, xerox, com considerável limitação de tiragem nesses casos. Essa situação dava à autoedição um caráter duplo de algo subalterno, menor, de menor qualidade e, ao mesmo tempo, de algo especial, com uma aura de único e incomum. “Menor” porque era uma espécie de aceitação da impossibilidade de ser publicado por uma estrutura maior e “profissional”; “único” porque era uma possibilidade do autor controlar todo o processo e se apresentar ao público sem intermediação.

Não é preciso descrever o que acontece hoje em dia. As técnicas para o autor se apresentar diretamente ao seu público se multiplicaram e todo mundo metido nesse negócio está aprendendo a lidar com isso misturando tudo o que há disponível, do virtual à impressão digital ou com carimbos. Um autor pode misturar técnicas, mídias e alternar entre a autoedição ou não de acordo com o que cada projeto tem a oferecer. A autoedição perdeu esse caráter de coisa inevitável para os amadores ou inconformados.

S Sua tira Vida boa foi publicada na Folha de São Paulo. Como foi produzir diariamente e para o “grande público”? Houve alguma mudança no seu processo criativo?

FZ Mais ou menos. Pensei no “grande público” só até o ponto em que decidi que o que iria fazer ficaria em algum lugar entre Charlie Brown e sitcoms. A partir daí estava livre pra fazer o que bem entendesse. Mas, me esqueci que meu desenho é irremediavelmente intragável para algumas pessoas. Então não foi tanto o pensamento no grande público que afetava meu processo, era mais o fato de ser uma tira diária. Era o processo de descobrir o que dava pra ser feito nessa estrutura velha e abusada de tiras diárias. E o que fiz com isso foi seguir um roteiro mais improvisado do que eu poderia prever. As características foram se formando à medida que a tira ia prosseguindo – se bem que isso não é tão distinto do meu processo criativo normal, onde eu sempre deixo espaço para poder improvisar um pouco na hora de finalizar a arte.

S Durante a exposição Primeiros tropeços de Fábio Zimbres foram mostrados alguns desenhos feitos por você quando ainda era criança. Parece que você sempre teve a mesma desenvoltura ao desenhar – um traço que demonstra urgência sem respeito às regras de proporcionalidade, perspectiva e anatomia. Houve algum período em que tentou desenhar “corretamente”?

FZ Toda minha vida! Ah, bom, não é bem assim. É preciso não se deixar levar por aqueles desenhos de infância e imaginar que eu descobri tudo quando tinha 6 anos e a partir daí eu construí meu trabalho. Na verdade, como dá pra ver naqueles desenhos, eu sempre fui fascinado por quadrinhos e desenho animado. Era praticamente só isso que eu desenhava. Assim como naquela época, na minha adolescência eu também ficava o tempo todo desenhando personagens. Mas, claro, os personagens que eu gostava, os de humor; nunca gostei de super-heróis e coisas parecidas. Sempre quis aprender como se faziam essas coisas que eu gostava. Isso me levava a desenhar obsessivamente e claro que minha intenção era desenhar certo. Não tinha nenhuma noção do que era um desenho “solto”, “espontâneo” ou “expressivo”. Era simplesmente de desenho que eu gostava e queria aprender a fazer. Eu sempre copiei sem fazer rascunho. Por ignorância, eu queria acertar de cara, no primeiro traço. Não dava certo, claro, mas de tanto fazer assim acabei descobrindo que era capaz de fazer um desenho que eu achava bom desse jeito. Não era igual aos outros, mas eu gostava. Não foi na infância que eu defini isso, mas descobri que desenho é o que você quiser fazer dele e a qualidade não está na perfeição da cópia da realidade.

Na verdade, eu me surpreendi com aqueles desenhos de infância, Fazia muito tempo que não os via e, quando os peguei, comecei a ver um monte de coisas que se vê no meu trabalho hoje. Estranho. Várias hipóteses surgiram e entre elas a de que eu só estou me repetindo desde os 6 anos e que meu auge já passou.

S Alguma vez você sentiu que teve alguma ideia ou algum projeto para o qual o seu traço não era o mais adequado? Algo que faria sentido num outro traço – ainda que de outra pessoa?

FZ Às vezes anoto ideias de roteiro que sinto que são pra outro tipo de quadrinhos, diferente do que eu faço, mas não faço muita coisa com essas anotações. O ideal seria desenvolver um roteiro e procurar alguém pra desenhar, mas eu não tenho saco pra isso. Meu trabalho ideal é outro, é uma HQ que seja orgânica, que vá se formando, mesclando texto e imagem de um jeito integrado, como se estivesse brotando ali, na frente da gente. E pra conseguir algo próximo disso eu vou construindo diálogos e desenhando tudo ao mesmo tempo, e é assim que surgem as coisas. Ou seja, faço histórias que meu desenho e meu método permitem e os dois têm seu limite. Mas, eu sinto que posso pegar qualquer ideia e desenvolver segundo esse meu método. Pode não ser o melhor aproveitamento daquela ideia específica, mas isso também não me importa. O que realmente me dá trabalho é pegar um roteiro de outra pessoa e tentar imaginar como seria fazer isso; nunca acho que é pra mim, as imagens que vêm na minha cabeça são de outros desenhistas.

S Você circula bastante bem tanto no meio dos quadrinhos quanto no das artes plásticas com seu trabalho em pintura e desenho. Como você compara as duas práticas? O que você leva de um suporte para o outro? E o que deliberadamente não leva?

FZ O que eu deliberadamente não levava, na verdade, estou tendo que rever porque acho que os dois meios podem ganhar se eu contrabandear algumas ideias. Tenho vontade de que meus quadrinhos apareçam mais nos trabalhos de arte e acho que alguns elementos que eu uso para trabalhos a serem expostos estão forçando sua entrada nos quadrinhos. No caso dos quadrinhos, uma certa abstração, indefinição e ambiguidade maiores estão começando a aparecer. Eu era mais radical no controle da narrativa do que agora. Por outro lado, sinto que o traço que eu uso para quadrinhos pode aparecer nos outros trabalhos também.

Quanto às diferenças, nos trabalhos que eu planejo para serem expostos, penso que eles são mais objetos que os de quadrinhos. Esses trabalhos têm que ter uma presença e se colocar diante da pessoa que vai ver como uma coisa que está viva na frente dela, e pra isso eu experimento bastante os materiais. Os quadrinhos não precisam disso. Mas, por outro lado, no caso dos quadrinhos, eu me imponho tantas regras de como um quadrinho deve ser que a criação sempre foi algo difícil e lento.

S Você sente alguma diferença de tratamento no meio dos quadrinhos e no das artes plásticas?

FZ Os meios são diferentes. Esperam coisas diferentes de cada tipo de artista. Eu sempre tive dificuldades em atender expectativas de um público, então isso é algo que procuro deixar de lado. Uma das vantagens que os autores de quadrinhos apontam nesse meio é que, como ninguém dá bola pra eles, podem fazer o que bem entenderem que ninguém vai ligar. Isso pode ser verdade nas artes visuais. Na verdade, o que se espera de um artista nesse meio é que ele sempre invente tudo de novo. Isso não é fácil fazer, mas pelo menos nos obriga a reordenar nossas ideias o tempo todo e isso até que é uma atitude interessante pra se levar pra mesa quando vamos fazer quadrinhos. ︎