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Here

Richard McGuire
Pantheon, 2014

Por Luis Aranguri

publicada originalmente no
Suplemento nº 3 (março/2015)
Here é a influente obra do norteamericano Richard McGuire que desenvolve uma viagem no tempo a partir de um ponto fixo no espaço — um dos cantos de uma sala de estar. A história de seis páginas que agora serve de base para o livro foi publicada em 1989 na Raw, a aclamada antologia de quadrinhos alternativos editada por Art Spiegelman e Françoise Mouly. Embora desconhecida do grande público, foi imediatamente reconhecida como um dos marcos criativos dos quadrinhos, tornando-se um trabalho icônico. O que chama a atenção em Here é a forma como McGuire usa a diagramação, uma das ferramentas mais importantes da linguagem dos quadrinhos, ditando o fluxo e o ritmo de leitura de uma obra. No trabalho original, quadros menores são inseridos nos quadros, cada um representando períodos diferentes daquele mesmo espaço. Ao fixar a atenção do leitor num mesmo lugar, o autor direciona o protagonismo reservado geralmente aos personagens para um local que à primeira vista parece insignificante. É desta forma que o autor mostra a riqueza desse lugar qualquer e como as coisas mais singelas têm diversas camadas e desdobramentos cada vez mais complexos.

O Here lançado ao final de 2014 tem duas mudanças, uma gráfica e outra estrutural. A primeira é a alternância entre várias abordagens de desenho e pintura, que são usadas no lugar do traço frio que aproximava o trabalho de 1989 de um manual de instruções. Os períodos que passam pelo lugar (ou pelo qual o lugar passa) são ilustrados com diferentes técnicas e materiais que informam a especificidade de cada momento histórico. A segunda é um aumento de escala que o aproxima tanto de uma “graphic novel” quanto de um livro ilustrado. Ao apresentar o canto de sala em páginas duplas perde-se um pouco do impacto causado pela simultaneidade que era conseguida com o grid rígido de seis quadros por página. Mas, com esse redimensionamento, McGuire tira proveito justamente do fato do leitor ter que seguir em frente, abandonar aquele lugar naquele momento específico, literalmente “virar a página”. Percorre-se mais da história, mas isso não significa necessariamente um esclarecimento ou um avanço. As incompreensões e incoerências se mantém. As associações de onde vêm o humor e a seriedade da obra não parecem menos absurdas com o passar do tempo.

O Here de 1989 é formalmente importante para os quadrinhos porque manipula a fragmentação temporal que caracteriza esta linguagem através de inserções, justaposições e sobreposições de quadros, destacando sempre que estes não passam de recortes de tempo e espaço. A imposição dos quadros não é somente uma sequência de eventos a ser vista linearmente, mas uma composição precisa que também permite leituras verticais e exige constantes retornos. Isso pode mudar um pouco com a nova apresentação, mas, como o recurso principal é mantido, o leitor permanece um participante que deve ir e voltar entre as páginas para preencher os intervalos, presumir, reavaliar, comparar e recordar.

Quando lembramos de algo, surge uma torrente de informações não necessariamente coerente e, assim como quando registramos alguma coisa através de fotografias, pinturas etc., fazemos uma delimitação que é sempre arbitrária. Nos concentramos em certos elementos que por um motivo ou outro são convenientes, excluindo os demais. É justamente nessa aproximação com o funcionamento da memória que está o grande trunfo de Here e sua relevância para além dos quadrinhos. McGuire, ao mesmo tempo em que joga com a memória do leitor, reconstrói o lugar formando um mosaico de eventos. Através dessa compartimentação vemos as ações que moldam a paisagem e nossa constante necessidade de controlar o espaço, problematizando-o e solucionando-o. Porém, isso parece irrelevante quando fatos apocalípticos e mundanos estão uns ao lado dos outros. Com tantas contrações, saltos e espasmos do tempo, Here reproduz nossa falta de controle sobre ele.

Here está longe de ser apenas uma série de ilustrações da Terra vista de um mesmo ponto que visa mostrar a efemeridade humana diante da História. Não há dúvida de que nos força a pensar sobre nossa existência questionando a relação que temos com o tempo e o espaço (e até mesmo a relação entre eles). Porém, mais do que isso, diz muito sobre como se dá nossa experiência do mundo, como o ocupamos histórica e geograficamente, como o construímos e o acessamos, como voltamos a ele. McGuire, ao produzir por 15 anos um objeto voltado especificamente para uma obra dada por completa há mais de 25, também deixa exposto o quanto um livro é uma condensação de tempo num espaço. Ciente disso, incorpora seu próprio retorno: em 1957, uma mulher se pergunta “Now why did I come in here again?" (Por que vim aqui mesmo?) para muito tempo depois, no mesmo momento, ao pegar um livro sobre a mesa, responder para si mesma “... Now I remember" (“... Agora me lembro”). Here não é apenas papel e tinta. Here é uma cápsula do tempo. ︎