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Pobre marinheiro

Sammy Harkham
Balão Editorial, 2013

Por Luis Aranguri

publicada originalmente no
Suplemento nº 1 (março/2014)

“Portos estrangeiros, comida exótica, povos interessantes e o gigante e maravilhoso oceano. Vai ser bom demais”. São essas as palavras que fazem ressurgir o espírito de aventura em Thomas, o protagonista de Pobre marinheiro, do americano Sammy Harkham. A ambivalência inicial em deixar para trás sua esposa Rachel e uma vida idílica é superada pela vontade de retornar à vida em alto-mar com Jacob, seu irmão e capitão de um barco de pesca. Porém, a viagem prometida se mostra muito diferente, com adversidades e imprevistos que se apresentam apenas aos marinheiros.

Embora seja seguida uma estrutura narrativa comum nos quadrinhos atuais – ao invés de resolver a história com um final feliz, ela é deixada pairando um pouco além do ponto de crise –, Harkham consegue prender a atenção do leitor pela densidade da história, que não é nada aparente graças a um traço que é ao mesmo tempo sintético e expressivo.

O ritmo que emerge da combinação dessa síntese de elementos visuais com a escolha de manter rigidamente um quadro por página é não apenas favorável à história, mas o ponto fundamental para o sucesso da narrativa. É através da leitura detida causada por cada quadro/página que Harkham proporciona ao leitor um momento (ainda que curto) de grande imersão. E é exatamente isso que parece ser, no fundo, a alma da história: imersão. Um breve deslocamento solitário para o desconhecido, no qual se está tão absorto na jornada que não importa quão triunfal possa ser o retorno.

Vale lembrar que Pobre marinheiro foi inspirado no conto No mar de Guy de Maupassant, não sendo necessariamente uma adaptação para os quadrinhos da obra do escritor francês. Ou seja, se localiza além do terreno das “adaptações livres” – deixando bem para trás as meras “adaptações” –, ficando na fronteira com uma obra original, nova. Assim, Pobre marinheiro se destaca no cenário nacional por ser uma publicação diametralmente oposta à maioria dos quadrinhos lançados no Brasil que têm por base uma obra literária. Por aqui, as prateleiras das livrarias são dominadas por versões para a linguagem do desenho de romances e contos, de preferência os clássicos, ilustrações postas em sequência para aqueles que supostamente não são capazes de entender completamente de outra forma. Essa abordagem – que ao “facilitar” a compreensão de uma obra pode acabar restringindo sua interpretação – não é ocasional, já que visa a compra direta de grandes tiragens da “adaptação” pelo governo federal, através do PNBE - Programa Nacional Biblioteca da Escola, para compor os acervos das bibliotecas das escolas públicas de todo o Brasil.

Longe dessa realidade editorial e de tentar seguir a obra de Maupassant, Harkham economiza palavras e utiliza No mar apenas como o catalisador de sua própria história. E é através de invenções e omissões que surge algo que seria inconcebível se o autor não rompesse com a obra original e se permitisse criar em quadrinhos passagens que valorizam exatamente esta linguagem. Confiante em sua capacidade como autor, Harkham se dá o espaço para impor a narrativa à sua forma por ter desenvolvido como editor da Kramers Ergot (uma das mais aclamadas antologias da atualidade) aquilo que constitui um bom editor: a sensibilidade para deixar que seja feito em quadrinhos o que se pode fazer de melhor. ︎